Ao ler as primeiras reportagens sobre o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010 (CFE 2010) e seus propósitos, é impossível não lembrar da “Porta do Inferno”, que ocupou a frente de várias agências em Curitiba e região na Campanha Salarial 2008 e que chegou a ser censurada por decisão judicial. “Queremos mostrar que a economia não deve visar o lucro desmedido, mas sim a dignidade humana”, explicou o reverendo Luiz Alberto Barbosa, da Igreja Anglicana, secretário-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), referindo-se aos propósitos da CFE deste ano.
O texto-base da Campanha insiste que a economia existe para a pessoa e para o bem comum da sociedade, não a pessoa para a economia. Portanto, embora necessário, o dinheiro deve ser usado pelo bem comum. Em síntese, a vida econômica deveria ser orientada por princípios éticos.
Nada mais contrastante do que falar em ética se o contexto é economia e, mais precisamente, o setor financeiro. Estudo divulgado no último dia 19, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apontou que os três maiores bancos privados que operam no país (Itaú Unibanco, Bradesco e Santander) fecharam 9.902 postos de trabalho em 2009, apesar de apresentarem um lucro líquido superior a R$ 24 bilhões e de terem ampliado o número de agências e a base de clientes no mesmo período.
Com o intuito de lucrar cada vez mais, os bancos desvirtuam sua função de intermediação financeira e concessão de crédito, reduzem custos cortando empregos, aumentam a pressão para o cumprimento de metas nas vendas de produtos e… por aí vai. A CFE 2010 só enfatizou que, do jeito que as coisas estão, ser banqueiro é o caminho mais curto para o inferno.